Dra. Giovanna Pernantoni - Cirurgiã de Cabeça e Pescoço
Redes sociais:

A era da chupeta dourada

Terça-feira, 17:15 , Natal. Café preto na mesa, celular no modo avião e um texto na cabeça. Resolvi escrever sobre um fenômeno fascinante da nossa era: o triunfo da hipersensibilidade sobre o bom senso.

Pense comigo.

O século XXI é, sem dúvida, o auge da evolução humana. Não precisamos mais carregar o peso insuportável de verdades absolutas ou da chata exigência de raciocínio lógico. Agora, tudo é relativo, tudo depende do “meu ponto de vista” — uma bênção para quem já estava cansado do incômodo exercício de pensar.

A mais recente invenção? A chupeta de adulto. Não a de silicone (embora, sinceramente, ainda estou sem acreditar), mas a metafórica: aquela que nos protege do desconforto da crítica, da aspereza da correção e, claro, do insuportável peso da responsabilidade. Afinal, para que amadurecer se é tão mais aconchegante permanecer no útero quentinho da autoindulgência? 

E a educação? Aquela coisa ultrapassada de sentar, ouvir e aprender? Substituímos por algo muito mais estimulante: a crença de que “minha opinião” tem o mesmo peso que anos de estudo e pesquisa. O diploma foi trocado pelo volume do grito nas redes sociais. Conhecimento virou adereço — usado apenas quando serve para lacrar, e nunca para aprender.

O “mimimi” — essa sinfonia contemporânea — rege o coro. Ninguém pode ser contrariado. A menor discordância é tratada como agressão pessoal. Vivemos num jardim de infância social, onde a palavra “não” é proibida e qualquer tentativa de impor limites é considerada tirania.

E, no amor, trocamos o compromisso pela conveniência. Relacionamentos não se constroem, se substituem. A moda agora é o ghosting: desaparecer sem explicação. Comunicação passivo-agressiva, elevada à categoria de arte. Por que enfrentar uma conversa difícil quando se pode simplesmente evaporar?

Conclusão: chegamos ao zênite da modernidade. Aqui, imaturidade é autenticidade, ignorância é opinião inabalável e covardia é desapego. Ser adulto virou a arte de fugir, de não sentir e, principalmente, de nunca ser confrontado por algo tão primitivo quanto a verdade.

Brindemos, então, à nossa era de ouro: onde a chupeta é o cetro, o mimimi é a lei e a invisibilidade é a prova máxima de evolução.

Agora, me diga: você está segurando a chupeta ou já largou?

Um abraço,

Giovanna Perantoni 

A era da chupeta dourada