
Segunda-feira, 6h15 da manhã. O céu, finalmente limpo depois de tanta chuva. Me preparando para um dia cheio de atendimentos e cirurgias.
E, no meio dessa rotina, um pensamento recorrente. Uma pergunta que escuto mais do que gostaria:
“Doutora, é normal sentir medo do câncer voltar?”
Respiro fundo…
Porque tem coisa que a gente não responde de supetão. Tem medo que não se acalma com uma frase pronta.
Quem já enfrentou o câncer sabe: a tempestade passa, mas o chão nem sempre volta a ser o mesmo. E eu não estou falando da cicatriz na pele. Estou falando daquela outra, mais profunda. A que não dá pra ver no espelho — mas que insiste em aparecer no retrovisor da vida.

É o exame que tira o sono.
É a consulta que pesa.
É o corpo em paz, mas a mente em vigília.
E, veja, esse medo não é fraqueza. É memória.
Memória de um tempo difícil, de uma batalha vencida a duras penas.
É o alerta de quem já viu o chão sumir sob os pés.
Pense comigo.
Quando um prédio é abalado por um terremoto, ele pode ser reconstruído. Mas o primeiro vento mais forte assusta. Assim é o corpo. Assim é a alma.
Mas e se a gente pudesse dar outro nome pra essa sombra?
Não, o medo não some.
Mas ele pode mudar de papel.
De vilão, ele pode virar guardião.
De paralisia, ele pode virar presença.
De tormenta, ele pode virar sinal.
Porque a vida depois do câncer é outra. E tudo bem que seja.
Ela é mais sensível.
Mais presente.
Mais grata.
A cicatriz vira medalha.
O medo, sabedoria.
O exame que antes apavorava, agora celebra a vitória.
Não se trata de eliminar o medo.
Mas de aprender a caminhar com ele.
Como quem cultiva um jardim:
Poda a ansiedade, aduba a fé, colhe alegria nos pequenos momentos.
É confiar na equipe médica.
Confiar nos exames.
Confiar em você.
Porque, no fim das contas, o câncer pode até ter mudado o roteiro…
Mas a caneta ainda está na sua mão.
E, acredite, há muitas páginas lindas por escrever.

Então, meu amigo, minha amiga,
Não deixe que a sombra no espelho retrovisor roube o brilho da estrada à sua frente.
Respire fundo.
Aperte o cinto.
E siga.
Com carinho,
Dra. Giovanna Perantoni
