Estou dentro do carro, esperando o trânsito dar uma trégua, mas é minha mente que não sossega. Ainda estou digerindo o caso de uma consulta online que atendi esta semana. Daquelas que te pegam. Que te lembram por que você faz o que faz.
Era uma paciente já operada. Parte da glândula tireoide tinha sido retirada. Ela veio até mim porque algo não parecia certo. Apareceu o tal do câncer.
Meu primeiro pensamento?
“Segunda opinião? Agora?”
Mas respirei fundo.
“Ok, vamos ver tudo que você fez até agora.”
E lá estavam os exames.
Punção, imagens, números.
Gritando o que ninguém quis ouvir.
Suspeita de câncer. Linfonodos aumentados.
A investigação incompleta. A cirurgia, pior ainda.
E eu, em silêncio, absorvendo o que era óbvio.
Chega então o momento mais difícil: dizer o que o outro não quer escutar.
Expliquei tudo. Com calma.
A situação, a estratégia, os próximos passos.
E, então, uma lágrima desceu pelo rosto dela.
Aperta o peito. Sempre aperta.
Porque, no fundo, ninguém quer ouvir que precisa de outra cirurgia.
Ninguém quer encarar que aquela primeira intervenção, feita por quem “parecia saber”, não resolveu.
É mais confortável acreditar na promessa de uma cirurgia simples.
É reconfortante pensar que já terminou.
Mas tem algo que não dá pra negociar: cura.
E foi isso que eu disse, olhando nos olhos dela:
“Meu compromisso é com a sua saúde. Porque, se não for agora, você vai voltar. Volta cansada. Volta pra outra mesa cirúrgica. E depois outra. Até entender que poderia ter sido uma só. Nas mãos certas.”
Eu sei que procurar uma segunda opinião não é fácil.
Mexe com orgulho, com medo, com esperança.
É quase admitir que a escolha anterior saiu cara demais.
Mas e se for justamente isso que te salva?
Encarar.
Admitir.
Perceber.
Porque tem uma pergunta que ecoa no fundo de tudo isso:

Com carinho,
Giovanna Perantoni
