Sábado à noite, fim de confraternização, Ainda sinto a gargalhada da turma ecoando no peito.
Dezoito anos de formados. Dezoito. É tempo suficiente para uma pessoa mudar de vida duas, três vezes. É tempo suficiente para o tempo mudar a gente.
Mas, ontem, eu descobri algo curioso: a caçula da turma já passou dos 40.
E, quando a caçula da turma já passou dos 40, meu amigo… a conta chega para todo mundo.
Pois é. Rimos disso com a naturalidade de quem sabe que a piada é boa justamente porque é verdadeira.
Mas, no meio da graça, veio aquela frase que sempre surge quando alguém descobre que eu fiz 40+:
— “De agora pra frente é ladeira abaixo.”
Eu respirei e sorri. Não por concordar.
Mas por saber que, na vida real — na vida vivida, não na vida comentada — a história é outra.
Aos 40, a gente não despenca.
A gente desce sabendo onde pisa.
Porque a maturidade é isso: a visão além do alcance.
É como se o mundo, de repente, ganhasse zoom.
Você enxerga o que antes passava batido.
Sente antes de ouvir.
Percebe antes de sofrer.
E age — graças a Deus — com mais parcimônia, mais calma, mais estratégia.
É por isso que eu digo, sem medo de errar: se existe alguma ladeira, ela não é abaixo.
Ela é uma descida suave rumo à sabedoria.
E isso, meu amigo, é privilégio.
Mas ontem, no meio das lembranças, houve outra constatação. Uma ainda mais bonita.
Algumas coisas mudam — e mudam para melhor.
Mas algumas… continuam exatamente onde sempre estiveram.
E que bom.
Foi engraçado ver que a fama não mudou.
A certinha da turma continua sendo a certinha da turma.
A pontual continua sendo a pontual.
A leal continua sendo a leal.
A que pensa mil vezes antes de decidir… continua pensando mil vezes antes de decidir.
E alguém até brincou:
— “Você não muda nunca!”
Eu pensei por um segundo.
E respondi em silêncio: ainda bem.
Porque existem características que são o nosso chão.
São aquilo que sustenta, que guia, que nos mantém inteiros quando a vida tenta nos puxar para mil lados diferentes.
Sim, mudei.
Ganhei maturidade, experiência, calma — e uma paciência que a minha versão de 20 anos acharia impossível.
Mas também permaneci.
E permanecer, às vezes, é mais bonito do que transformar.
O mundo vai dizer que ser “certinha demais” incomoda.
E incomoda mesmo.
Mas eu não estou aqui para ser agradável — estou aqui para ser coerente.
E coerência, meu amigo, raramente é unanimidade.
Então eu sigo sendo quem eu sou.
Mudando o que precisa ser mudado.
Aprimorando o que merece ser melhor.
E guardando com carinho o que nunca deve ir embora.
Porque a vida é isso:
Um jogo elegante entre transformar e preservar.
Entre subir mais um degrau e manter o chão firme.
Entre evoluir e honrar quem você sempre foi.
E você?
O que, em você, mudou para melhor?
E o que permanece — e, graças a Deus, permanece?
Me conte. Quero saber.
Giovanna Perantoni
