Dra. Giovanna Pernantoni - Cirurgiã de Cabeça e Pescoço
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Sonho sem decisão

Domingo cedo.

A cidade ainda desacelerando, como quem se despede de mais um excesso…
e eu começando o meu dia.

Hospital, dia nublado, silêncio.

E foi impossível não pensar em uma coisa simples :

todo mundo paga um preço.

Alguns pelo excesso.
Outros… pelo adiamento.

Eu escuto isso com frequência:

“é um sonho meu.”

E eu acredito.

De verdade.

Porque dá pra sentir.
Tem algo ali mais profundo. Mais antigo. Mais íntimo.

Mas com o tempo, e com muitas histórias passando pela minha frente, fica claro:

não é a falta de sonho que afasta alguém da própria vontade.

É outra coisa mais difícil de assumir.

É a falta de decisão sustentada.

Porque decidir não é falar.

Decidir é fazer e sustentar.

É acordar em dias comuns e ainda assim escolher o que você disse que queria.
É não negociar com aquilo que já te incomoda há anos.
É parar de empurrar pra depois algo que claramente não foi embora.

E aqui está o ponto que quase ninguém gosta de olhar:

adiar também é uma escolha.

Sem anúncio.
Sem marco.
Sem responsabilidade explícita.

Mas com um preço…

que se acumula.

O tempo passa e isso é inevitável.

Mas algumas insatisfações não passam com ele.

Elas não desaparecem.
Elas não “resolvem sozinhas”.
Elas não amadurecem até virar aceitação.

Elas ficam.

E, com o tempo, deixam de ser detalhe.

Viram presença.

Uma presença constante…
no espelho, na roupa, na forma como você se posiciona.

Na forma como você se enxerga.

E talvez seja por isso que, no fundo, seja sobre alinhamento.

Sobre se olhar e sentir que aquilo que você vê…
conversa com quem você acredita ser.

Ou com quem você quer ser.

Existe um momento em que a dúvida deixa de ser dúvida.

E vira consciência.

Você entende o que te incomoda.
Você entende o que você quer.
Você entende o que precisa ser feito.

O que falta, então, não é clareza.

É decisão.

E não, isso não significa pressa.

Não significa fazer tudo agora.

Mas significa parar de fugir.

Porque às vezes, tudo começa de um jeito muito mais simples do que parece:

uma conversa honesta.

Sem pressão.
Sem promessa exagerada.
Sem necessidade de decidir tudo na hora.

Só você…
e a coragem de não se ignorar mais.

Se tem algo que permanece em você,

talvez não seja mais detalhe.

Talvez seja um chamado.

E a pergunta deixa de ser “se”.

Passa a ser:

até quando você vai adiar você?

Sonho sem decisão