O desejo de ficar mais bonita não pode ser maior do que o compromisso com a própria segurança.
Vivemos um momento em que as cirurgias estéticas da face estão sendo perigosamente banalizadas.
De uma aparentemente simples blefaroplastia a um lifting facial completo, muitas pessoas procuram esses procedimentos imaginando apenas o resultado final: um olhar mais jovem, um rosto mais bonito, um contorno mais definido.
Mas existe uma realidade que precisa ser discutida com muito mais seriedade: toda cirurgia envolve riscos. E cirurgia estética continua sendo CIRURGIA!
Costumo dizer aos meus pacientes que entrar em uma sala cirúrgica não é um mero passeio no parque. Não existe cirurgia de risco zero. E, antes de decidir por qualquer procedimento, é preciso compreender não apenas os benefícios desejados, mas também os problemas que podem acontecer ao longo do caminho.
Porque as intercorrências existem. Podem ser agudas ou crônicas, simples ou graves, transitórias ou permanentes.
Estamos falando de complicações clínicas, como trombose, embolia pulmonar, pneumonia, AVC e complicações cardiovasculares.
Estamos falando também de complicações diretamente relacionadas ao ato cirúrgico: hematomas, infecções, deiscências de feridas, sofrimento e necrose de tecidos, lesões de nervos sensitivos e motores, assimetrias e alterações funcionais.
E estamos falando, ainda, de problemas que podem surgir durante a recuperação, comprometer a cicatrização, exigir novos procedimentos e, em determinadas situações, deixar sequelas definitivas.
Não estou falando isso para assustar ninguém. Estou falando porque o paciente tem o direito de saber exatamente a que está se submetendo.
O que me preocupa profundamente é perceber como procedimentos que exigem conhecimento anatômico refinado, habilidade cirúrgica, estrutura hospitalar e capacidade de reconhecer e tratar complicações vêm sendo apresentados como intervenções simples, rápidas e praticamente isentas de riscos.
Profissionais com formações distintas, nem sempre acompanhadas de treinamento cirúrgico adequado para a complexidade desses procedimentos, passaram a oferecer cirurgias faciais como se dominar uma técnica fosse suficiente para dominar todas as suas possíveis consequências.
Mas saber realizar uma cirurgia não é a mesma coisa que saber lidar com tudo aquilo que pode dar errado durante ou depois dela.
E essa diferença pode custar muito caro.
Uma cirurgia facial não envolve apenas pele, gordura e músculos. Envolve nervos, vasos sanguíneos, estruturas profundas, funções essenciais e uma anatomia que não admite improvisações.
Também me preocupa a naturalização de cirurgias realizadas em ambientes sem a estrutura necessária para responder a uma emergência, muitas vezes sem a presença de um anestesiologista, como se esse profissional fosse dispensável ou representasse apenas um custo adicional.
Segurança não é um luxo. Não é um detalhe. E muito menos um gasto que deva ser simplesmente eliminado para tornar uma cirurgia mais barata.
Minha formação em Cirurgia de Cabeça e Pescoço na USP-SP, construiu a maneira como enxergo e pratico a cirurgia facial.
Por isso, faço escolhas muito conscientes.
Nas minhas cirurgias de face, faço questão de utilizar monitorização de nervos, quando aplicável à técnica realizada. Faço questão de operar em ambiente hospitalar, com anestesiologista qualificado, equipe preparada e retaguarda de terapia intensiva.
Não porque esses recursos tornem a cirurgia livre de complicações. Eles não tornam.
Mas porque entendo que a segurança começa muito antes da primeira incisão e precisa continuar muito depois do último ponto.
A monitorização de nervos é um recurso adicional, não substitui o conhecimento anatômico nem elimina o risco de lesões. Da mesma forma, uma boa estrutura hospitalar não impede que todas as intercorrências aconteçam, mas amplia nossa capacidade de reconhecê-las e oferecer uma resposta adequada.
É exatamente essa a diferença entre simplesmente realizar um procedimento e assumir integralmente a responsabilidade por ele.
O verdadeiro compromisso de um cirurgião não é apenas entregar um rosto mais bonito. É cuidar da pessoa inteira que existe por trás daquele rosto.
Por isso, antes de escolher onde ou com quem operar, não pergunte apenas quanto custa, como ficará a cicatriz ou quantos anos você poderá rejuvenescer.
Pergunte sobre a formação de quem vai operar, a estrutura disponível, a equipe envolvida, os riscos específicos do seu procedimento e, principalmente, o que será feito se alguma coisa não sair como o esperado.
Porque a beleza é importante. A autoestima também.
Mas nenhuma promessa de rejuvenescimento deveria valer mais do que a sua saúde, a sua funcionalidade e a sua vida.
Cirurgia estética não deve ser banalizada.
O resultado importa. Mas a segurança precisa vir primeiro.
Dra. Giovanna Perantoni
